quarta-feira, 3 de março de 2010

De repente 30!

"Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos superar o passado."

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera.
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Tenho uma ruga no meio da testa.

Este foi o primeiro pensamento ao ver aquela marca que o tempo fez brotar à minha face. Estiquei o rosto, examinei-o e não havia mais nenhuma. Apenas ela, bem ali, gritando. Bem no meio da minha testa.

Naquele dia fui escrava do espelho a cada dez minutos e confesso que, embora soubesse que ela estaria ali, cada vez que eu ia ver o meu reflexo, sustentava uma ansiedade pelo seu sumiço e nada. Ela continuava ali.

Durante algumas horas do mesmo dia, fiz pesquisas sobre tratamentos estéticos , cremes e demais opções para as marcas físicas as quais a natureza humana não resiste ao tempo.

Primeiro compraria  um creme anti-sinais que prometia resultado em duas semanas.
Religiosamente nos horários indicados, seguiria as instruções de uso para que o tratamento fosse eficaz. Algumas vezes me pareceria menos agressiva, mas passados três meses, ela continuaria ali. Aquela maldita ruga. Bem no meio da minha testa.

O fabricante prometeria garantia no resultado ou o meu dinheiro de volta, mas para mim, seria  indiferente. Só de pensar no transtorno que me causaria e nas possíveis outras rugas que me pudessem surgir, desistiria da idéia de reclamar. O valor pago não era nada comparado à minha constante insistência em sumir com aquele sinal de envelhecimento tão visível a olho nu.

Optaria então, por uma tal ginástica facial que se resumiria a uma série de caretas estranhas que fariam com que eu me sentisse no mínimo idiota. Entretanto, poderia notar uma melhora surpreendente na elasticidade do meu rosto. Ela porém, a ruga, bem ali no meio da minha testa, continuaria lá, bem no meio.

Resolveria então, submeter-me a algum tratamento revolucionário, que provavelmente se chamaria “hidrochoque”. Consistiria em pequenas descargas elétricas acionadas pelo movimento da água que passava por uma agulha que aplicaria. Simplesmente horrível. Acredito que seu colocasse o nariz numa tomada seria a mesma coisa. A clínica alegaria que devido ao choque a pele se contrairia e relaxaria, tornando assim os sinais da idade não visíveis. Meu tempo máximo nessa tortura seriam sete dias, considerando duas sessões semanais e desconsiderando as que não compareceria, com certeza. E o pior de tudo é que, eu ainda teria uma ruga no meio da testa.

Demoraria aproximadamente uma semana pra me recuperar daquela experiência traumática e procurar uma nova solução para aquele insulto ao meu rosto.

Em alguma terça-feira meio nublada, ouviria alguém dizer que a diretora da empresa havia feito aplicação de botox. Me senti uma idiota. Como eu poderia não ter pensando nisso antes. Teria me poupado tanto tempo. Tanto dinheiro. Tanto aborrecimento. Tanta tortura.

Começaria uma busca insana por clínicas confiáveis, tudo por causa daquela maldita ruga no meio da testa.

Três décadas do meu nascimento e tenho marcas.
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Tenho amores vividos. Praticamente um grande amor pra cada década. Tenho lembranças guardadas. Tenho sonhos realizados. Tenho feridas ainda abertas. Tenho objetivos. Tenho amigos. Tenho família.

Tenho marcas invísiveis.Tenho marcas de expressão.Tenho manchinhas na pele.Tenho cicatrizes. Internas e externas.

Tenho sim,  uma ruga bem no meio da testa, mas não vou perder meu tempo tentando tirá-la. Faz parte da minha vida. É apenas um sinal da vivência.

Um creminho preventivo, não faz mal à ninguém, mas pra que tanta preocupação com uma coisa tão natural?

Mãos e cotovelos também envelhecem.






3 comentários:

  1. Mais perturbador que as marcas no meio da testa, são as gavetas emperradas que guardam coisas que precisam de ar livre.

    E, em tempo, eles NUNCA devolvem o dinheiro.

    Benvinda de volta!

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  2. P-E-R-F-E-I-T-O!!!!!! nO comments!!! Sensivelmente arrebatador!

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  3. Tão bom ter você de volta por aqui. São marcas que nos distinguem e nos tornam únicos.
    Fazem parte de nossa subjetividade.
    Eu me deparei com meu primeiro cabelo branco mês passado. É difícil quando se pensa em idade cronológica, mas faz sentido quando se pensa em vivência, maturidade e crescimento. Vira até post do blog :)
    Quero te ver esse fds, hein?!?

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